P A L A V R A D E V I D A
JANEIRO DE 2012
«Portanto, já que fostes ressuscitados com Cristo, procurai as coisas do alto, onde está Cristo, sentado à direita de Deus» (Cl 3, 1).
Estas palavras, que S. Paulo dirigiu à comunidade de Colossos, dizem-nos que existe um mundo onde reina o verdadeiro amor, a plena comunhão, a justiça, a paz, a santidade, a alegria. Um mundo em que o pecado e a corrupção já não podem entrar. Um mundo em que a vontade do Pai é perfeitamente observada. É o mundo a que pertence Jesus. É o mundo que Ele nos abriu, de par em par, com a sua ressurreição, passando pela dura prova da paixão.
«Portanto, já que fostes ressuscitados com Cristo, procurai as coisas do alto, onde está Cristo, sentado à direita de Deus».
A este mundo de Cristo – diz S. Paulo –, nós, não só somos chamados, mas já pertencemos. A fé diz-nos que, mediante o baptismo, nós somos inseridos n’Ele e, por isso, participamos da sua vida, das suas riquezas, da sua herança, da sua vitória sobre o pecado e sobre as forças do mal: de facto, ressuscitámos com Ele.
Mas, ao contrário das almas santas que já chegaram à meta, a nossa participação nesse mundo de Cristo ainda não é total e límpida. Sobretudo, ainda não é estável e definitiva. Enquanto vivermos nesta Terra estamos expostos a mil e um perigos, dificuldades e tentações, que nos podem fazer vacilar, podem travar a nossa caminhada, ou até desviá-la para falsas metas.
«Portanto, já que fostes ressuscitados com Cristo, procurai as coisas do alto, onde está Cristo, sentado à direita de Deus».
Compreende-se, então, a exortação do Apóstolo: «Procurai as coisas do alto». Procuremos sair, não já materialmente, mas espiritualmente, deste mundo. Abandonemos as regras e as paixões do mundo para nos deixarmos guiar, em cada situação, pelos pensamentos e pelos sentimentos de Jesus. De facto, “as coisas do alto” significam a lei do alto, a lei do Reino dos Céus, que Jesus trouxe à Terra e quer que a sigamos desde já.
«Portanto, já que fostes ressuscitados com Cristo, procurai as coisas do alto, onde está Cristo, sentado à direita de Deus».
Como viver, então, esta Palavra de Vida? Ela incentiva-nos a não nos contentarmos com uma vida medíocre, feita de meias medidas e compromissos, mas a adequá-la, com a graça de Deus, à lei de Cristo.
Estimula-nos a viver e a empenhar-nos em testemunhar, no nosso ambiente, os valores que Jesus trouxe à Terra: poderá ser o espírito de concórdia e de paz, de serviço aos irmãos, de compreensão e de perdão, de honestidade, de justiça, de rectidão no nosso trabalho, de fidelidade, de pureza, de respeito pela vida, etc.
O programa, como se vê, é vasto como a vida. Mas, para não ficarmos numa coisa vaga, vivamos este mês aquela lei de Jesus que é, de certo modo, o resumo de todas as outras: vendo em cada irmão Cristo, coloquemo-nos ao seu serviço. Pois não é sobre isto que vamos ser interrogados no fim da nossa existência?
Chiara Lubich
1) Publicada em Città Nuova, 1988/6, p. 11.
DEZEMBRO DE 2011
«Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas» [Lc 3, 4]. (1)
Neste tempo do Advento, aqui está uma nova “palavra”, que somos convidados a viver. O evangelista Lucas foi buscar a frase de Isaías, o profeta da consolação. Para os primeiros cristãos, ela é atribuída a João, o Baptista, que precedeu Jesus.
E a Igreja, neste tempo que antecede o Natal, apresentando – como dizíamos – o Precursor, convida-nos a viver na alegria, porque João Baptista é como um mensageiro que anuncia o Rei. Este, de facto, está para chegar. Aproxima-se o tempo em que Deus cumpre as Suas promessas, perdoa os pecados, dá a salvação.
«Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas».
Mas, se esta é uma palavra de alegria, é também um convite para uma nova orientação de toda a nossa existência, para uma mudança radical de vida.
O Baptista convida a preparar o caminho do Senhor. Mas qual é esse caminho?
Anunciado pelo Baptista, Jesus, antes de sair para a vida pública e começar a sua pregação, passou pelo deserto. Foi este o Seu caminho. E no deserto, se por um lado encontrou a profunda intimidade com o Seu Pai, encontrou também as tentações – fazendo-se assim solidário com todas as pessoas –, das quais saiu vencedor. E esse mesmo percurso encontramos mais tarde, na Sua morte e ressurreição. Jesus, tendo percorrido o Seu caminho até ao fim, torna-se Ele mesmo “caminho” para nós, que estamos a caminho.
Jesus é o caminho por onde devemos seguir para podermos realizar profundamente a nossa vocação humana, que é entrar na plena comunhão com Deus.
Cada um de nós é chamado a preparar o caminho a Jesus, que quer entrar na nossa vida. É preciso, então, endireitar as veredas da nossa existência, para que Ele possa entrar em nós.
Temos que Lhe preparar o caminho, eliminando, um por um, todos os obstáculos: aqueles que são postos pelo nosso modo limitado de ver as coisas, pela nossa vontade fraca.
Temos de ter a coragem de escolher entre um caminho feito por nós e o que Ele preparou para nós. Entre a nossa vontade e a Sua. Entre um programa querido por nós e aquele que foi pensado pelo Seu amor omnipotente.
E uma vez tomada essa decisão, temos de trabalhar para adaptar a nossa vontade recalcitrante à Sua. Como? Os cristãos realizados ensinam um método bom, prático, inteligente: fazê-lo agora, neste momento.
No momento presente retiremos uma pedra após outra, para que nunca mais viva a nossa vontade em nós, mas sim a Sua.
Assim viveremos a Palavra: «Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas».
Chiara Lubich
1) Palavra de Vida, Dezembro de 1997, publicada em Città Nuova, 1997/22, pp. 32-33.
NOVEMBRO DE 2011
«Portanto, vigiai, porque não sabeis o dia nem a hora» [Mt 25, 13]. (1)
Jesus tinha acabado de sair do templo. Os discípulos, cheios de orgulho, fizeram-Lhe notar a imponência e a beleza do edifício. Mas Jesus disse-lhes: «Vedes tudo isto? Em verdade vos digo que não ficará aqui pedra sobre pedra: tudo será destruído» (2). Depois subiu ao Monte das Oliveiras, sentou-se e, olhando para Jerusalém que estava diante de Si, começou a falar da destruição da cidade, e do fim do mundo.
Os discípulos perguntaram-Lhe quando e como aconteceria o fim do mundo. Essa questão foi posta também pelas gerações cristãs que se seguiram, e é uma questão levantada por todo o ser humano. Realmente, o futuro é misterioso e, muitas vezes, assusta. Ainda hoje há quem interrogue os magos e consulte o horóscopo para saber como será o futuro, e o que pode vir a acontecer...
A resposta de Jesus é muito clara: o fim dos tempos coincide com a Sua vinda. Ele, Senhor da História, há-de voltar. É Ele o ponto luminoso do nosso futuro.
E quando será esse encontro? Ninguém sabe, pode ser a qualquer momento. De facto, a nossa vida está nas Suas mãos. Ele deu-no-Ia. E Ele pode retomá-la também, de um momento para o outro, sem aviso prévio. No entanto, previne-nos que a melhor forma de nos prepararmos para esse acontecimento é estarmos vigilantes.
«Portanto, vigiai, porque não sabeis o dia nem a hora».
Com estas palavras, Jesus recorda-nos, antes de mais, que Ele há-de vir. A nossa vida na Terra irá terminar e terá início uma vida nova, que nunca mais terá fim. Hoje em dia, ninguém gosta de falar da morte. Às vezes as pessoas fazem de tudo para se distraírem, mergulhando completamente nas ocupações quotidianas. Acabam por se esquecer até d’Aquele que nos deu a vida e que nos vai voltar a pedi-Ia para nos conceder a plenitude da vida, na comunhão com o Seu Pai, no Paraíso.
Estaremos nós prontos para ir ao Seu encontro? Teremos a lâmpada acesa, como as virgens prudentes que estão à espera do Esposo? Ou seja, estaremos no amor? Ou estará apagada a nossa lâmpada porque, ocupados pelas muitas coisas a fazer, pelas alegrias efémeras, pela posse dos bens materiais, acabámos por nos esquecer da única coisa necessária, que é amar?
«Portanto, vigiai, porque não sabeis o dia nem a hora».
Mas como vigiar? Antes de mais – sabemos bem –, vigia bem, precisamente, quem ama. É o que faz a esposa que aguarda o marido que se atrasou no trabalho, ou que está de regresso de uma longa viagem. Como faz a mãe que se inquieta com a demora do filho a chegar a casa. Ou o namorado que está ansioso por encontrar a namorada... Quem ama sabe esperar até mesmo quando o outro se demora.
Esperamos Jesus se O amarmos e se desejarmos ardentemente estar com Ele. E esperamo-Lo amando concretamente, servindo-O, por exemplo, em quem esta próximo de nós, ou esforçando-nos por edificar uma sociedade mais justa. É o próprio Jesus que nos convida a viver assim, ao contar a parábola do servo fiel. Este, enquanto espera o regresso do seu patrão, toma conta dos outros empregados e dos negócios da casa. Ou a parábola dos servos que, também à espera do regresso do dono da casa, se esforçam por fazer render os talentos recebidos.
«Portanto, vigiai, porque não sabeis o dia nem a hora».
Exactamente porque não sabemos o dia nem a hora da Sua vinda, podemos concentrar-nos mais facilmente no hoje que nos é dado, na tarefa de cada dia, no momento presente que a Providência nos oferece para viver.
Há tempos, veio-me o desejo espontâneo de dirigir a Deus esta oração.
Gostaria de a recordar agora.
«Jesus, faz-me falar sempre
Como se fosse a última palavra que possa dizer.
Faz-me agir sempre
Como se fosse a ultima acção que possa fazer.
Faz-me sofrer sempre
Como se fosse o último sofrimento que tenho para te oferecer.
Faz-me rezar sempre
Como se fosse a minha última possibilidade,
Aqui na Terra, de poder falar contigo».*
1) Palavra de Vida, Novembro de 2002, publicada em Città Nuova, 2002/20, p. 7;
2) Mt 24, 2.* Em PARAR O TEMPO, de Chiara Lubich, Editora Cidade Nova, Lisboa 2001, p. 30.
OUTUBRO DE 2011
“Segue-me!” (Mt 9,9)
Quando saía de Cafarnaum, Jesus viu um cobrador de impostos, chamado Mateus, sentado no posto de cobrança. Mateus estava a exercer um cargo que as pessoas consideravam odioso e que o identificava com os usuários e os exploradores, que enriqueciam à custa dos outros. Os escribas e os fariseus punham-no no mesmo plano dos pecadores públicos, a ponto de censurarem Jesus por ser “amigo de cobradores de impostos e pecadores” e por comer com eles (cf. Mt 11,19; 9,10-11).
Jesus, indo contra toda a convenção social, chamou Mateus a segui-Lo e aceitou jantar na sua casa, como faria mais tarde com Zaqueu, o chefe dos cobradores de impostos de Jericó. Ao pedirem-Lhe explicações sobre este comportamento, Jesus disse que Ele veio para curar os doentes, e não para os que têm saúde. Veio chamar, não os justos, mas os pecadores. E o seu convite, desta vez, era dirigido justamente a um deles:
“Segue-me.”
Jesus já tinha dirigido esta Palavra a André, Pedro, Tiago e João, nas margens do lago. O mesmo convite, com outras palavras, dirigiu também a Paulo, na estrada de Damasco. Mas Jesus não ficou por ali. Ao longo dos séculos continuou a chamar, para O seguirem, homens e mulheres de todos os povos e nações. E faz isso ainda hoje: passa na nossa vida, encontra-nos em lugares diferentes, de modos diferentes, e faz-nos sentir novamente o Seu convite a segui-lo. Chama-nos a estar com Ele, porque quer estabelecer connosco um relacionamento pessoal, e, ao mesmo tempo, convida-nos a colaborar com Ele no grande projeto de uma nova humanidade.
Ele não se importa com as nossas fraquezas, os nossos pecados, as nossas misérias. Ele Ama-nos e escolhe-nos tal como somos. É o seu amor que nos irá transformar e dar forças para Lhe responder e a coragem para O seguir, como fez Mateus. E, para cada um, Ele tem um amor, um projeto de vida e um chamamento particular. Sentimos isso no coração, através de uma inspiração do Espírito Santo ou através de determinadas circunstâncias, de um conselho, de uma indicação de um amigo nosso… Embora manifestando-se nos modos mais variados, é a mesma palavra que ressoa:
“Segue-me!”
Lembro-me quando, também eu, senti esse chamado de Deus.
Foi numa manhã frigidíssima de inverno, em Trento, Itália. A minha mãe pediu à minha irmã mais nova para ir buscar o leite, a dois quilómetros de casa. Mas estava muito frio e ela não foi. Também a minha outra irmã se recusou a ir. Então eu adiantei-me: “Vou eu, mãe!”, disse-lhe, e peguei na garrafa. Saí de casa e, a meio do caminho, aconteceu um facto um pouco especial: pareceu-me que o Céu se estava a abrir e que Deus me convidava a segui-Lo. “Dá-te toda a mim”, ouvi no meu coração.
Era o chamado explícito, a que desejei responder imediatamente. Falei disso ao meu confessor e ele permitiu que me desse a Deus para sempre. Era o dia 7 de dezembro de 1943. Jamais poderei descrever o que se passou dentro de mim, naquele dia: tinha desposado Deus. Podia esperar tudo Dela.
“Segue-me!”
Esta palavra não se refere só ao momento determinante da decisão da nossa vida. Jesus continua a dirigi-la a nós, todos os dias. “Segue-me!”, parece sugerir-nos perante os mais simples deveres quotidianos: “Segue-me” naquela dificuldade a abraçar, naquela tentação a vencer, naquele trabalho a fazer...
Como responder-Lhe concretamente?
Fazendo aquilo que Deus quer de nós no momento presente. O que traz consigo, sempre, uma graça particular. O que temos a fazer neste mês deve ser, portanto, entregarmo-nos à vontade de Deus com toda a decisão. Darmo-nos ao irmão e à irmã que devemos amar, ao trabalho, ao estudo, à oração, ao descanso, à atividade que devemos desempenhar. Temos que aprender a ouvir a voz de Deus no fundo do coração. Ele fala também através da voz da consciência. Esta diz-nos aquilo que Deus quer de nós em cada momento. Mas temps que estar prontos a sacrificar tudo o resto para o realizar.
“Faz com que Te amemos, ó Deus, cada dia um pouco mais. Mas, porque podem ser demasiado poucos os dias que nos restam, faz com que Te amemos, em cada momento presente, com todo o coração, com toda a alma e todas as forças, naquela que é a Tua vontade”.
Este é o melhor método para seguir Jesus.
Chiara Lubich
Esta Palavra de Vida foi publicada em junho de 2005
SETEMBRO DE 2011
«Tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e reviveu; estava perdido e foi encontrado» Lc 15, 32. (1)
Esta frase está no final da parábola do filho pródigo (que conhecemos, de certeza), e quer revelar-nos a grandeza da misericórdia de Deus. A parábola conclui um capítulo do Evangelho de S. Lucas, em que Jesus narra mais duas parábolas, para ilustrar o mesmo assunto: o episódio da ovelha perdida, cujo dono deixa as outras noventa e nove no deserto, para ir à procura dela (2); e a história da dracma perdida, com a alegria da mulher que, ao encontrá-la, chama as amigas e as vizinhas para que se alegrem com ela (3).
«Tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e reviveu; estava perdido e foi encontrado».
Estas palavras são um convite que Deus dirige a cada um de nós – e a todos os cristãos – para nos regozijarmos com Ele, fazermos uma festa e participarmos na Sua alegria pelo regresso do pecador, que estava perdido e foi encontrado. Na parábola, estas palavras são ditas pelo pai ao filho mais velho – com quem tinha partilhado toda a sua vida –, mas que, após um dia árduo de trabalho, se recusa a entrar em casa onde se festeja o regresso do irmão.
O pai vai ao encontro do filho fiel, como foi ao encontro do filho perdido, e tenta convencê-lo. Mas é evidente o contraste entre os sentimentos do pai e os do filho mais velho: o pai revela um amor sem medidas e uma grande alegria, que desejaria ver partilhada por todos. O filho, pelo contrário, está cheio de desprezo e de ciúmes do irmão, que já nem reconhece como tal. De facto, ao falar dele, diz: «Esse teu filho, que gastou os teus bens» (4).
O amor e a alegria do pai, pelo filho que voltou, acentuam ainda mais o rancor do outro. Rancor que revela um relacionamento frio e – poderíamos dizer – falso para com o próprio pai. Para este filho é mais importante o trabalho e o cumprimento dos deveres, e nem parece amar o pai com um amor de filho. Dá mais a impressão que lhe obedece como a um patrão.
«Tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e reviveu; estava perdido e foi encontrado».
Com estas palavras Jesus denuncia um perigo em que também nós podemos cair: vivermos para sermos umas boas pessoas, baseando-nos na busca da própria perfeição, e considerando os irmãos inferiores a nós. O facto é que, se estivermos “apegados” à perfeição, edificamos a nossa pessoa sem Deus. Enchemo-nos de nós mesmos, ficamos cheios de admiração por nós mesmos. Fazemos como o filho que ficou em casa e que enumera ao pai as suas qualidades: «Há já tantos anos que te sirvo sem nunca transgredir uma ordem tua» (5).
«Tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e reviveu; estava perdido e foi encontrado».
Com estas palavras Jesus vai contra o tipo de comportamento que assenta a relação com Deus unicamente na observância dos mandamentos. É que uma tal observância já não chega. E a tradição hebraica também está bem ciente disso. Nesta parábola, Jesus põe em evidência o Amor divino, mostrando como Deus, que é Amor, dá o primeiro passo para ir ao encontro de cada pessoa. Não analisa se ela o merece ou não, mas quer que cada um se abra a Ele para poder estabelecer uma autêntica comunhão de vida. Claro que, como podemos perceber, o maior obstáculo a Deus-Amor é precisamente a vida daqueles que acumulam acções e obras, quando Deus desejaria que Lhe dessem os seus corações.
«Tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e reviveu; estava perdido e foi encontrado».
Com estas palavras Jesus convida-nos a ter, para com o pecador, o mesmo amor sem medida que o Pai tem por ele. Jesus chama-nos a não reduzir, segundo a nossa medida, o amor que o Pai tem por todas as pessoas, indistintamente. Ao convidar o filho mais velho a partilhar da sua alegria pelo regresso do irmão, o Pai pede-nos, também a nós, uma mudança de mentalidade. Na prática, devemos aceitar como irmãos e irmãs também aqueles homens e mulheres por quem nutriríamos apenas sentimentos de desprezo ou de superioridade. Isso provocará em nós uma verdadeira conversão, porque nos vai purificar da convicção de sermos melhores do que os outros. Assim, evitaremos a intolerância religiosa e receberemos a salvação, que Jesus nos trouxe, como uma dádiva pura do amor de Deus.
Chiara Lubich
1) Palavra de Vida, Março de 2001, publicada em Città Nuova, 2001/4. p. 7; 2) cf. Lc 15, 4-7; 3) cf. Lc 15, 8-10; 4) Lc 15, 30; 5) Lc 15, 29.
AGOSTO DE 2011
«Eis que venho para fazer a Tua vontade» [Heb 10, 9]. (1) É um versículo do Salmo 40, que o autor da Carta aos Hebreus põe na boca do Filho de Deus, em diálogo com o Pai. S. Paulo quer sublinhar, deste modo, o amor com que o Filho de Deus se fez homem, para cumprir a obra da Redenção, por obediência à vontade do Pai. Estas palavras fazem parte de um contexto em que o autor quer demonstrar a infinita superioridade do sacrifício de Jesus, em relação aos sacrifícios da Lei antiga. Ao contrário destes últimos – em que as vítimas que se ofereciam a Deus eram animais ou, em todo o caso, coisas extrínsecas aos homens –, Jesus, impulsionado por um amor imenso, durante a sua vida na Terra, ofereceu ao Pai a sua própria vontade, todo o seu ser.
«Eis que venho para fazer a Tua vontade». Esta Palavra dá-nos a chave de leitura da vida de Jesus, ajudando-nos a perceber o aspecto mais profundo e o fio de ouro que liga todas as etapas da sua existência terrena: a sua infância, a sua vida privada, as tentações, as opções que fez, a sua actividade pública, e até a morte na cruz. A cada instante, em todas as situações, Jesus procurou uma única coisa: cumprir a vontade do Pai. E cumpriu-a de uma forma radical, não fazendo nada fora dela e rejeitando até as propostas mais aliciantes que não estivessem em plena sintonia com essa vontade.
«Eis que venho para fazer a Tua vontade». É uma frase que nos faz compreender a grande lição que toda a vida de Jesus tinha em vista. Ou seja, que a coisa mais importante é cumprir não a nossa, mas a vontade do Pai. Temos que ser capazes de dizer «não» a nós mesmos, para dizermos «sim» a Deus. O verdadeiro amor a Deus não consiste em lindas palavras, ou ideias ou sentimentos, mas na obediência efectiva aos seus mandamentos. O sacrifício de louvor que Ele deseja que lhe façamos é oferecer-Lhe, com todo o nosso amor, aquilo que temos de mais íntimo, aquilo que mais nos pertence: a nossa vontade.
«Eis que venho para fazer a Tua vontade». Como viver, então, a Palavra de Vida deste mês? É daquelas palavras que melhor põem em evidência o aspecto de contra a corrente do Evangelho, na medida em que combate a tendência que mais está enraizada em nós: satisfazer a nossa vontade, seguir os nossos instintos e sentimentos. E é, também, uma das frases mais incómodas para o homem moderno. Vivemos na época da exaltação do eu, da autonomia da pessoa, da liberdade como fim em si mesma, da auto-satisfação para a realização do indivíduo, do prazer visto como critério para as próprias opções e como segredo para a felicidade... Mas já conhecemos as consequências desastrosas desta cultura. Pois bem, a essa cultura baseada na satisfação da própria vontade opõe-se a cultura de Jesus, completamente orientada para o cumprimento da vontade de Deus, com os efeitos maravilhosos que Ele nos garante. Então vamos procurar viver a Palavra deste mês preferindo também nós a vontade do Pai. Isto significa fazer dela a norma e a orientação de toda a nossa vida, tal como fez Jesus. Deste modo, lançamo-nos numa divina aventura, que nos vai encher de gratidão a Deus. Através da vontade de Deus, santificamo-nos e podemos difundir o amor de Deus em muitos corações.
Chiara Lubich1)
Palavra de Vida, Dezembro de 1991, publicada em Città Nuova, 1991/22, pp. 34-35.
JULHO DE 2011
«Vigiai e orai para não cairdes em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca» [Mt 26, 41]. (1)
Jesus – durante a sua agonia no Monte das Oliveiras – dirigiu estas palavras a Pedro, Tiago e João, ao vê-los vencidos pelo sono. Ele levara-os consigo – eram os três apóstolos que tinham presenciado a sua transfiguração no monte Tabor – para que estivessem a seu lado naquele momento tão difícil e se preparassem com Ele através da oração. Na verdade, aquilo que estava prestes a acontecer, iria ser uma provação terrível também para eles.
«Vigiai e orai para não cairdes em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca».
Estas palavras – lidas à luz das circunstâncias em que foram pronunciadas –, mais do que uma recomendação feita por Jesus aos discípulos, devem ser vistas como um reflexo do seu estado de alma, ou seja, de como Ele se preparava para a provação. Perante a paixão iminente, Ele reza com todas as forças do seu espírito. Luta contra o medo e contra o horror da morte. Lança-se no amor do Pai para ser fiel, até ao fim, à Sua vontade, e ajuda os seus apóstolos a fazerem o mesmo.
Jesus, aqui, é o modelo de como se deve enfrentar uma provação. Mas, ao mesmo tempo, é como o irmão, que se põe ao nosso lado nesse momento difícil.
«Vigiai e orai para não cairdes em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca».
A chamada de atenção para a vigilância é muito frequente nas palavras de Jesus. Para Ele, vigiar significa: nunca se deixar vencer pelo sono espiritual; manter-se sempre pronto para ir ao encontro da vontade de Deus; saber reconhecer os sinais que a exprimem na vida de todos os dias; e, sobretudo, saber enfrentar as dificuldades e os sofrimentos à luz do amor de Deus.
E a vigilância é inseparável da oração, porque esta é indispensável para vencer os momentos difíceis. A fragilidade da natureza humana (“a fraqueza da carne”) só pode ser ultrapassada com a força que vem do Espírito.
«Vigiai e orai para não cairdes em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca».
Como viver, então, a Palavra de Vida deste mês?
Também nós temos que nos preparar para os momentos difíceis: as pequenas ou grandes dificuldades que encontramos todos os dias. Dificuldades normais ou provas clássicas, que os cristãos vão encontrar com toda a certeza, mais dia, menos dia. Ora, a primeira condição para se vencer uma prova – seja ela qual for – é a vigilância, diz-nos Jesus. Trata-se de saber discernir e perceber que são dificuldades permitidas por Deus, não para nos desencorajar, mas para que, ao vencê-las, amadureçamos espiritualmente.
E, ao mesmo tempo, devemos rezar. É necessária a oração, pois são duas as tentações em que mais facilmente podemos cair nesses momentos: por um lado, termos a presunção de ser capazes de vencer a prova sozinhos; por outro lado, termos o sentimento oposto, isto é, ficarmos com medo de sucumbir, como se aquela dificuldade fosse superior às nossas forças. Jesus, pelo contrário, garante-nos que o Pai do Céu nunca permitirá que nos falte a força do Espírito Santo, se vigiarmos e se lho pedirmos com fé.
Chiara Lubich
1) Palavra de Vida, Abril de 1990, publicada em Città Nuova, 1990/6, p. 9.
JUNHO DE 2011
«Não vos acomodeis a este mundo. Pelo contrário, deixai-vos transformar, adquirindo uma nova mentalidade, para poderdes discernir qual é a vontade de Deus: o que é bom e Lhe é agradável e perfeito» [Rm 12, 2].(1)
Esta frase encontra-se na segunda parte da Carta de S. Paulo aos Romanos. Aqui, o Apóstolo descreve o procedimento cristão como expressão da nova vida, do verdadeiro amor, da verdadeira alegria e da verdadeira liberdade que Cristo nos deu. É a vida cristã como um novo modo de enfrentar, com a luz e a força do Espírito Santo, as várias tarefas e problemas que podemos vir a encontrar. Neste versículo, estreitamente ligado ao anterior, o apóstolo define a finalidade e a atitude de base que deveriam caracterizar sempre o nosso comportamento: fazer da nossa vida um hino de louvor a Deus, um acto de amor prolongado no tempo, na busca constante da Sua vontade, daquilo que Lhe é mais agradável.
«Não vos acomodeis a este mundo. Pelo contrário, deixai--vos transformar, adquirindo uma nova mentalidade, para poderdes discernir qual é a vontade de Deus: o que é bom e Lhe é agradável e perfeito».
É evidente que, para cumprir a vontade de Deus, é necessário, primeiro, conhecê-la. Mas, como o apóstolo nos faz compreender, isso não é fácil. Não é possível conhecer bem a vontade de Deus sem uma luz especial. Uma luz que nos ajude a discernir, nas várias situações, aquilo que Deus quer de nós, evitando as ilusões e os erros em que facilmente poderíamos cair. Trata-se daquele dom do Espírito Santo que se chama “discernimento” e que é indispensável para construir em nós uma autêntica mentalidade cristã.
«Não vos acomodeis a este mundo. Pelo contrário, deixai--vos transformar, adquirindo uma nova mentalidade, para poderdes discernir qual é a vontade de Deus: o que é bom e Lhe é agradável e perfeito».
Mas, como obter e desenvolver em nós esse dom tão importante? Claro que é preciso que tenhamos um bom conhecimento da doutrina cristã. Mas isso não é suficiente. Como nos sugere o apóstolo, é sobretudo uma questão de vida. É uma questão de generosidade, de esforço por viver a Palavra de Jesus, pondo de lado os receios, as incertezas e os cálculos mesquinhos. É uma questão de disponibilidade e de prontidão em cumprir a vontade de Deus. É esta a forma de adquirir a luz do Espírito Santo e construir em nós a nova mentalidade que aqui nos é pedida.
«Não vos acomodeis a este mundo. Pelo contrário, deixai--vos transformar, adquirindo uma nova mentalidade, para poderdes discernir qual é a vontade de Deus: o que é bom e Lhe é agradável e perfeito».
Como viveremos então a Palavra de Vida deste mês? Procurando merecer, também nós, aquela luz que é necessária para cumprir bem a vontade de Deus. Vamos procurar então conhecer cada vez melhor a Sua vontade tal como nos é expressa através da Sua Palavra, dos ensinamentos da Igreja, dos deveres do nosso estado, etc. Mas, sobretudo, procuremos vivê-la, já que, como acabámos de ver, é vivendo no amor que brota em nós a verdadeira luz. Jesus manifesta-se a quem O ama e põe em prática os seus mandamentos (cf. Jo 14, 21).
Conseguiremos assim cumprir a vontade de Deus e dar-Lhe a melhor prenda que Lhe podemos oferecer. E isto ser-Lhe-á agradável não só pelo amor que poderá exprimir, mas também pela luz e pelos frutos de renovação cristã que suscitará à nossa volta.
Chiara Lubich
1) Palavra de Vida, Agosto de 1993, publicada em Città Nuova, 1993/14, pp. 34-35.
Maio de 2011
«Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua mente» [Mt 22, 37]. (1)
No tempo de Jesus, havia um tema clássico que as escolas rabínicas debatiam muito: qual seria o primeiro de todos os mandamentos das Escrituras? Jesus, que era considerado um mestre, não se esquivou à pergunta de um fariseu, legista: «Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?». Ele respondeu de uma forma original, unindo o amor a Deus com o amor ao próximo. Os seus discípulos nunca poderão separar estes dois amores, assim como, numa árvore, não se podem separar as raízes da sua copa. Quanto mais eles amarem a Deus, mais intensificam o amor aos irmãos e às irmãs. Quanto mais amarem os irmãos e as irmãs, mais aprofundam o amor a Deus.
Jesus, melhor do que ninguém, sabe quem é realmente o Deus que devemos amar e de que modo deve ser amado: é o seu Pai e nosso Pai, o seu Deus e nosso Deus (cf. Jo 20, 17). É um Deus que ama cada um pessoalmente: a mim, a ti. É o meu Deus, o teu Deus («Amarás ao Senhor, teu Deus»).
E nós podemos amá-Lo porque foi Ele que nos amou primeiro: o amor que nos é ordenado é, portanto, uma resposta ao Amor. Podemos dirigir-nos a Ele com a mesma familiaridade e confiança que Jesus tinha quando Lhe chamava Abbá, Pai. Também nós, do mesmo modo que Jesus, podemos falar muitas vezes com Ele, expondo-Lhe todas as nossas necessidades, propósitos, projectos, declarando-Lhe o nosso amor exclusivo. Também nós queremos esperar ansiosamente que chegue o momento de nos pormos em contacto profundo com Ele, através da oração, que é diálogo, comunhão, intensa relação de amizade. Nesses momentos, podemos dar largas ao nosso amor: adorá-Lo para além da Criação, glorificá-Lo presente em todos os pontos do Universo, louvá-Lo no fundo do nosso coração ou vivo nos tabernáculos. Podemos pensar que Ele está ali onde nós estivermos: no nosso quarto, no trabalho, no escritório, no encontro com os outros...
«Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua mente».
Jesus ensina-nos também um outro modo de amar o Senhor Deus. Para Jesus, amar significou cumprir a vontade do Pai, pondo à Sua disposição o pensamento, o coração, as energias, a própria vida: entregou-Se totalmente ao projecto que o Pai tinha estabelecido para Ele. O Evangelho mostra-nos Jesus sempre e totalmente dirigido para o Pai (cf. Jo 1, 18), sempre no Pai, sempre concentrado em dizer apenas aquilo que tinha ouvido do Pai, a realizar apenas o que o Pai Lhe tinha dito para fazer. E pede-nos o mesmo também a nós: amar significa fazer a vontade do Amado, sem meias medidas, com todo o nosso ser: «com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua mente». Porque o amor não é apenas um sentimento. «Por que me chamais: “Senhor, Senhor”, e não fazeis o que Eu digo?» (Lc 6, 46), pergunta Jesus àqueles que amam só com palavras.
«Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua mente».
Como viver então este mandamento de Jesus? Mantendo, sem dúvida, com Deus, uma relação filial e de amizade, mas, sobretudo, fazendo aquilo que Ele quer. A nossa atitude para com Deus, tal como fez Jesus, é estar sempre projectados no Pai, em constante escuta d’Ele, e em obediência, para realizar unicamente a Sua obra, e nada mais.
Neste mandamento, é-nos pedida a máxima radicalidade, porque a Deus não se pode dar menos do que tudo: todo o coração, toda a alma, toda a mente. E isto significa fazer bem, completamente, aquela acção que Ele nos pede.
Para viver a Sua vontade e identificar-se com ela, será necessário, muitas vezes, “queimar” a nossa vontade, sacrificando tudo aquilo que temos no coração ou no pensamento, que não esteja relacionado com o momento presente. Pode ser uma ideia, um sentimento, um pensamento, um desejo, uma lembrança, uma coisa, uma pessoa...
E eis-nos, assim, totalmente projectados naquilo que nos é pedido no momento presente. Falar, telefonar, ouvir, ajudar, estudar, rezar, comer, dormir, viver a Sua vontade sem divagar. Realizar acções completas, honestas, perfeitas, com todo o coração, toda a alma, toda a mente. Ter como único motor, em todas as nossas acções, o amor, de modo a poder dizer, em cada momento do dia: «Sim, meu Deus, neste momento, nesta acção, amei-Te com todo o coração, com todo o meu ser». Só assim poderemos dizer que amamos a Deus, que retribuímos o Seu ser Amor para connosco.
«Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua mente».
Para viver esta Palavra de Vida será útil, de tempos a tempos, analisarmo-nos a nós mesmos, para ver se Deus está realmente em primeiro lugar na nossa alma.
E então, para concluir, o que devemos fazer neste mês? Escolher novamente Deus como único ideal, como o tudo da nossa vida, voltando a colocá-Lo no primeiro lugar, vivendo com perfeição a Sua vontade no momento presente. Devemos poder dizer-Lhe com sinceridade: «Meu Deus e meu tudo», «Amo-Te», «Sou todo teu», «És Deus, és o meu Deus, o nosso Deus de amor infinito!».
Chiara Lubich
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1) Palavra de Vida, Outubro de 2002, publicada em Città Nuova, 2002/18, p. 7.
MARÇO DE 2011
“Eis aqui a serva do Senhor! Faça-se em mim segundo a tua palavra.” (Lc 1,38)
Como fez com Maria, Deus quer revelar também a nós tudo o que Ele projetou para cada um, quer nos dar a conhecer nossa verdadeira identidade. É como se nos dissesse: “Quer que eu faça de você e de sua vida uma obra-prima? Siga o caminho que estou lhe mostrando, e você se tornará o que você sempre foi e é no meu coração. Pois desde toda a eternidade eu o concebi e amei, pronunciei o seu nome. Quando lhe digo a minha vontade, estou lhe revelando seu verdadeiro eu”.
É por isso que a vontade Dele não é uma imposição que nos oprime, mas a manifestação do seu amor por nós, do seu projeto para nós; ela é sublime como o próprio Deus, fascinante e extasiante como a sua face; é Ele mesmo que se doa. A vontade de Deus é um fio de ouro, uma trama divina que tece toda a nossa vida terrena e a eterna; vai desde a eternidade até a eternidade – primeiro, na mente de Deus; depois, nesta terra e, enfim, no Paraíso.
Mas, para que o desígnio de Deus possa se cumprir plenamente, Deus pede a minha e a sua adesão, como a pediu a Maria. Só assim é possível que a palavra que Ele pronunciou para mim e para você se realize. Portanto, também nós somos chamados a dizer, como Maria:
De fato, tendo entendido que a sua vontade é o que de maior e de mais bonito pode existir na vida, não vamos nos resignar a “ter de fazer” a vontade de Deus, mas vamos nos alegrar por “podermos fazer” a vontade de Deus e seguirmos seu projeto, de modo que o que Ele imaginou para nós se realize. É a melhor coisa que podemos fazer, a mais inteligente.
Acreditemos que nada acontece por acaso. Nenhum acontecimento alegre, indiferente ou doloroso, nenhum encontro, nenhuma situação de família, de trabalho, de escola, nenhuma condição de saúde física ou moral é sem sentido. Mas tudo – acontecimentos, situações, pessoas – é portador de uma mensagem de Deus; tudo contribui para a realização do desígnio Dele, que vamos descobrindo aos poucos, dia após dia, fazendo a vontade de Deus, como Maria.
“Eis aqui a serva do Senhor! Faça-se em mim segundo a tua palavra.”
De que modo podemos, então, viver esta Palavra? Nosso sim à Palavra de Deus significa, concretamente, fazer bem, na íntegra e a cada momento, a ação que a vontade de Deus requer de nós. Significa fazer essa atividade de corpo e alma, eliminando qualquer outra coisa, renunciando a pensamentos, desejos, lembranças ou ações que se refiram a outra coisa.
Chiara Lubich
FEVEREIRO DE 2011
«Todos os que se deixam guiar pelo Espírito, esses é que são filhos de Deus» [Rm 8, 14] (1)
Esta Palavra de Vida encontra-se na parte central do hino que S. Paulo canta à beleza da vida cristã, à sua novidade e liberdade. Estes são frutos do baptismo e da fé em Jesus, que nos inserem plenamente n’Ele, e, através d’Ele, no dinamismo da vida trinitária. Ao tornamo-nos uma única pessoa com Cristo, compartilhamos o Seu Espírito e todos os seus frutos: e o primeiro de todos é a filiação de Deus.
Ainda que S. Paulo fale de «adopção» (2), fá-lo unicamente para a distinguir da posição de filho natural que compete apenas ao Filho único de Deus.
A nossa relação com o Pai não é puramente jurídica, como seria a relação de filhos adoptivos, mas algo de substancial, que muda a nossa própria natureza, como se por um novo nascimento. Porque toda a nossa vida passa a ser animada por um princípio novo, por um espírito novo que é o próprio Espírito de Deus.
E nunca mais acabaríamos de cantar, em sintonia com S. Paulo, o milagre de morte e ressurreição que a graça do baptismo realiza em nós.
«Todos os que se deixam guiar pelo Espírito, esses é que são filhos de Deus».
Esta Palavra fala-nos de uma coisa que tem muito a ver com a nossa vida de cristãos. De facto, o Espírito de Jesus introduz em nós um dinamismo, uma tensão que S. Paulo sintetiza na contraposição entre carne e espírito. Por carne entende o homem inteiro (corpo e alma) – com toda a sua constitucional fragilidade e o seu egoísmo – continuamente em luta com a lei do amor, ou melhor, com o próprio Amor que foi derramado nos nossos corações (3).
De facto, aqueles que são conduzidos pelo Espírito, têm de enfrentar todos os dias o «bom combate da fé» (4). Só assim podem repelir todas as inclinações para o mal e viver de acordo com a fé professada no baptismo.
Mas como? Sabemos que – para que o Espírito Santo possa agir – é necessária a nossa correspondência. S. Paulo, ao escrever esta Palavra, pensava sobretudo naquele aspecto dos discípulos de Cristo, que consiste precisamente na renúncia a si mesmo, na luta contra o egoísmo, com as numerosas formas com que se apresenta.
Mas é este morrer para nós mesmos que produz vida. De forma que, cada corte, cada poda, cada “não” ao nosso eu egoísta, é fonte de luz nova, de paz, de alegria, de amor, de liberdade interior: é uma porta aberta ao Espírito.
Dando mais espaço ao Espírito Santo que está nos nossos corações, Ele poderá derramar, com maior abundância, os seus dons, e poderá conduzir-nos no caminho da vida.
«Todos os que se deixam guiar pelo Espírito, esses é que são filhos de Deus».
Como viver, então, esta Palavra de Vida?
Antes de tudo, devemos tornar-nos cada vez mais conscientes da presença do Espírito Santo em nós. Trazemos no nosso íntimo um tesouro imenso, mas nem nos apercebemos bem dessa realidade. Possuímos uma riqueza extraordinária, mas quase nunca fazemos uso dela.
Em segundo lugar, para que a Sua voz seja por nós ouvida e seguida, devemos dizer não a tudo aquilo que é contra a vontade de Deus e dizer sim a tudo o que Deus quer. Dizer não às tentações, afastando prontamente as respectivas sugestões. Dizer sim às tarefas que Deus nos confiou; sim ao amor para com todos os nossos próximos; sim às provações e às dificuldades que encontramos…
Se assim fizermos, será o Espírito Santo a conduzir-nos, dando à nossa vida cristã aquele sabor,
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